blues do winterlúdio

[tema]


inverno, são carlos.
           em minhas narinas
                            afluem barcos.


[solo de clarinete]


os carros são jazigos
            perdidos no espasmo.
     as luzes caminham
                  no charco. cigarros
          sonhando lábios
                           apagam entre
         os semáforos.


[solo de trompete]


cigarras tardias cantam
          uma antiga canção
no rádio que sintoniza
          apenas uma estação.
com elas compadeço:
          assovio vivaldi  ao vento
- ao menos o movimento
         que prefacia o verão.


[solo de sax]


sotrunos consumidores
trazem o mar nos sapatos,
no rosto estafado de náufragos
duas opacas opalas.
amargos, apertam tomates
afagam aspargos,
                  e rangem os dentes nas filas,
                  frustados pelas tâmaras:
        afinal como amá-las
        se o perfume está de greve
        e já prepara barricadas?


[solo de bateria]


tu dum tutz (tsc tsc tsc tsc)
tá tu dum tá tu tu tu tu tutz
tz tz tztz tz tztz tz tz tz
trada trá tá tá dum (tsc)
tá dum tz trá dá dum tz
trá dá tá dum tu tu tz
trá dá tá dum tu tz (tsc)
dum dum dum trá
trá
trá
tá-tá-tá
(trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrra)
tzum!


[solo de baixo]


debaixo da ponte
a noite no homem
espera. casa de placas
de aluga-se: o sonho
da casa própria
é pra quem não
tem mãos, ou
não as sabe. nos
vãos quando aos poucos
se vão as nuvens
e vêm as viaturas,


sobre todas as criaturas
a lua é um
                  luxo para
                                    loucos.


[ritornelo]


inverno, são carlos.
           em minhas narinas
                            afluem barcos.

eu apresento a página branca [arnaldo antunes]

Eu apresento a página branca.


Contra:


Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.


Eu apresento a página branca.


A árvore sem sementes.


O vidro sem nada na frente.


Contra a água.

viva a vodka

     maiakóvski com gelo
um ou dois refrões na lira
         em cujo arco meu verso
                       delira

inventário do poeta (*)

1. leva uma foto do amor na carteira.


2. colhe pequenas margaridas
e mastiga-lhes o dentro.


3. ouve conversa de besouros
que ainda não nasceram.


4. tem os olhos túrgidos
de um boi.


5. no bojo do sorriso
traz caninos afinados.


6. levanta uma orelha
quando passa o caminhão do gás.

* (no que diz respeito aos seus atributos colaterais)

canto em meio ao mar


         falta-me
a língua da qual teu nome
                         emerge:
límpido
    nexo entre bocas
e bocetas

meu canto soçobra no chamar-te
      e lança garrafas com pentelhos
            e pétalas

                                             menos vivo
como houvesse devorado
    o farto corpo do Atlântico
                        e na garganta exasperado
          trouxesse algas

atiro poemas nas gaivotas...

canto longe do mar


é possível, por exemplo
que a curvatura do mar
tenha o teu modo de sorrir
ou brinque com os teus pássaros
e durma nos teus ombros

você, que sustém o azul
e distribui as linhas
                que do sol ao sul
       se enovelam nos meus dedos
é possível
que durante o sono das formas
         haja onde morrer um barco
       entre os vazios que se procuram cegos
                     separados por lençóis de espuma

escusas

cada folha deste arranjo
pretende ter (pedem
que lhes conceda ter),
na forma manifesta de um risco:


a densidade de uma 

mola contraída

e a extensão de um


cisco.


escrita é cavar na página um fosso tinto de silêncio.


o sumiço do chapéu

a conquista da inércia pelo homem aconteceu depois do tempo. lembro-me perfeitamente: era quase sábado, todos os bares calados. um vulto embriagado cruzou a avenida e avançou com convicção, ainda que houvesse a dúvida do passo seguinte. as buzinas o fazia dançar como um macaco num tortuoso rito. ao chegar do outro lado o homem viu que havia esquecido seu chapéu. deu de ombros e viveu sua vida sem voltar por sobre os passos, aposentou-se no setor imobiliário e morreu de alguma causa (como houvesse causa para o equívoco) natural. o chapéu, no entanto, permaneceu. a fuligem deu lustro ao chapéu, a chuva lhe trouxe musgo. a cidade cresceu em volta do chapéu, pessoas passavam  e diziam: pobre chapéu, tão engraçado. até que debaixo do chapéu fermentou-se o que relevou ser um vulto de macaco. e ele cresceu do concreto onde o chapéu jazia, tão lentamente que ninguém percebeu. no momento de estar completamente pronto, do tamanho de um homem real, retomou seu trôpego périplo do ponto em que fora interrompido.


Morena

Morena tinha durinhos os bicos do peito. Por trás da fina malha de algodão, quase me perfuravam as vistas, de modo que, para lhe falar, me era preciso olhá-la de resvalo, a quarenta graus. O tempo, Morena, é de tal natureza, eu lhe dizia. Sacana que a gente nem sabe. Toda metafísica do mundo contra os bicos do peito de Morena. E continuava: há uma espessura do agora, uma carne do tempo que nos envolve e encerra. Aqui, nunca estamos sem que já tenhamos passado. Chegamos atrasados ao encontro de nós mesmos quando lá da ponta nos dizemos: há quanto tempo, e blá. Tudo se consome no fogo. Eu e você, teus indefectíveis peitos. E depois, tudo se renova, exatamente igual: haverá - como houve - um dia exatamente igual a este, embora outro. E você vestirá esta mesma malha branca, e eu direi com a mesma boca, embora outra, estas mesmas-outras palavras. E novamente há cinco anos teremos nos conhecido no beco mais sujo da cidade, você dizendo seus delírios familiares, eu inventando teorias. Nosso encontro esperara por nós desde antes de tudo. Também este som oco dos laços rompendo, o bater de dentes e as lágrimas frias, tudo isso nos pertencia... nos pertencerá. Essa dor é somente um termo de uma série toda distendida, um nó do tempo que atravessamos cegos. E também ela vai se consumir em seu próprio elã. E pela infinitésima vez, o vento soprará a novidade sobre cada um de nós. E novamente o encontro casual em um supermercado, você com cabelos tingidos, eu mais gordo, ambos desbastados pela constante maré dos acontecimentos, seremos apenas um eco difuso e poroso do que fôramos, como a falsificação de si mesmas que as cigarras abandonam pelas árvores. Nos diremos felizes com sorrisos pesados, e nos deixaremos como crivados nos dias mais vivos, de onde nos acenamos sem feridas. Morena, impassível, levanta. Num gesto de mil anos me abre os braços. Os peitos me roçam perfurando meu corpo. Há uma coisa que nunca se repete: enquanto Morena se afasta, é sempre outra a primeira folha que pousa sobre minha mão, que espera.

poeta crônico

dar ao nome dor
um ente

eis talvez a sina
a que se destina
este teu cantor

mesmo que essa dor
seja dor de dente

náufrago

na dança do redor em torno de si
a poesia é meu modo de ficar parado

ancorado no epicentro do vórtice
suporto um corpo que me suporta

sem respeito pela sucessão dos fatos
entremeado por todas as horas

dormidas
vindouras
presentes

atiro garrafas ao mar
perdendo horizontes
e zênites


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