Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa. Mostrar todas as postagens
Morena
Morena tinha durinhos os bicos do peito. Por trás da fina malha de algodão, quase me perfuravam as vistas, de modo que, para lhe falar, me era preciso olhá-la de resvalo, a quarenta graus. O tempo, Morena, é de tal natureza, eu lhe dizia. Sacana que a gente nem sabe. Toda metafísica do mundo contra os bicos do peito de Morena. E continuava: há uma espessura do agora, uma carne do tempo que nos envolve e encerra. Aqui, nunca estamos sem que já tenhamos passado. Chegamos atrasados ao encontro de nós mesmos quando lá da ponta nos dizemos: há quanto tempo, e blá. Tudo se consome no fogo. Eu e você, teus indefectíveis peitos. E depois, tudo se renova, exatamente igual: haverá - como houve - um dia exatamente igual a este, embora outro. E você vestirá esta mesma malha branca, e eu direi com a mesma boca, embora outra, estas mesmas-outras palavras. E novamente há cinco anos teremos nos conhecido no beco mais sujo da cidade, você dizendo seus delírios familiares, eu inventando teorias. Nosso encontro esperara por nós desde antes de tudo. Também este som oco dos laços rompendo, o bater de dentes e as lágrimas frias, tudo isso nos pertencia... nos pertencerá. Essa dor é somente um termo de uma série toda distendida, um nó do tempo que atravessamos cegos. E também ela vai se consumir em seu próprio elã. E pela infinitésima vez, o vento soprará a novidade sobre cada um de nós. E novamente o encontro casual em um supermercado, você com cabelos tingidos, eu mais gordo, ambos desbastados pela constante maré dos acontecimentos, seremos apenas um eco difuso e poroso do que fôramos, como a falsificação de si mesmas que as cigarras abandonam pelas árvores. Nos diremos felizes com sorrisos pesados, e nos deixaremos como crivados nos dias mais vivos, de onde nos acenamos sem feridas. Morena, impassível, levanta. Num gesto de mil anos me abre os braços. Os peitos me roçam perfurando meu corpo. Há uma coisa que nunca se repete: enquanto Morena se afasta, é sempre outra a primeira folha que pousa sobre minha mão, que espera.
Marcadores:
prosa
tonho dodói
velho como o vento, jurava ter descabaçado a lua. os olhos vítreos brincando os vultos. incapazes de cena: pro sinhor vê, que de tanta lonjura despenquei da pretidão, e cá o joelho instrupiô. por um momento movia os lábios em silêncio, cheios de sulcos no redor. a língua dançava entre os raros dentes, recordava. o dedo apontando - foi quando em menino, nem tinha aivão nem nada. mãezinha me tocou pro mato, modo eu catar estrela, contava. alva música ondulava no sonhamento do velho, no contra-ocre da terra batida. como de dentro de um aquário, sondava as coisas turvas estrangeiras, cheias de luzes: pequenas estrelinhas nas mãos dos rapazes e das meninas que iam e vinham na rua que ele vira crescer. eles levavam as luzinhas ao rosto e falavam. como conversando com candeeiros. mas isso ele também fez muito, de menino. mastigou, cuspiu, levou o braço à boca. a lua nunca brilhou tanto como naquele dia, explicou. ele também ficou bem uns sete meses coberto por um pó de luz que banho nenhum tirava. passava os dias sonhando, escrevinhando coisas. os meninos apontavam, olha lá o tonho dodói. mas ele sabia que encantamento não era doença. que doença fazia a gente amarelo, fraco, molengo. isso não podia ser, sabia. quando na lua subiram uns homens, ele ficou injuriado: pisarem no meu bem, espetando coisas, tirando pedaço. triste, ele andou por dias. quando voltou era outro. diz-se que o menino ficou e mandou no lugar este senhor, para sentar nesta cadeira de vime, mastigar mato e cuspir e lembrar. dizem também que o pó de luz formou um rastro, e que se a gente seguir, vai encontrar o menino atracado à lua, trêmulos os dois, de um amor mais verdadeiro que o mundo. coisa que se conta por aqui, e que não se inventa duvidar.
são carlos, março de 2012.
são carlos, março de 2012.
Marcadores:
prosa
tardinha na repartição
ronaldo olhou seu relógio argênteo de ponteiros muy exatos e constantes e pensou nos seus quarenta honrados anos e na sua aposentadoria. escreveu mais um poema, rogéria na cabeça, as pernas grossas e sadias o cabelo liquidinoso, acetinado. aos poemas que escrevia, anexava umas paisagens noturnas, salvador, araras azuiz, coqueiros, peixes ornamentais, o carnaval de olinda, o da holanda, o de miami. glorinha olhava seu terno sempre muito reto e gris, e gaguejava o horário do trem ao telefone. os olhos de glorinha não cansavam de piscar. as lâmpadas frias piscavam, por sua vez, tecendo um contraponto eletroacustico pra momo nenhum chiar. bom dia glorinha, o café tá no ponto. glorinha cotucava a gola do uniforme como cotucasse uma ferida: dia, seu naldo. as prática leva às prefeição. gradeço. rogéria estava de grená; sanguínea, sanguinária. aos quinze namorava homens de cinquenta. hoje, aos quarenta e um, procura nos bares os rapazes imberbes e pálidos. ronaldo gagueja um bom dia. as xícaras tilintam, um porta clipes produz contra o carpete um som opaco. o açúcar se confunde ao cinza mesclado. uma andorinha enfia sua cabeça no vidro espelhado e cai sobre o saguão central. o veio de sangue desce a janela, seguido pelo cortejo das pupilas no escritório. o silêncio sobrepuja o açúcar e quando o som revive é a final do campeonato e o sarney quem entra em campo. por uma parca fração de pálpebras o sentido se produz e todos concidadanizam mutuamente. um instante veloz, na proporção de um espirro. saúde, grita gertrudes, do canto esquerdo do polígono estéril da repartição. e todos articulam os músculos do rosto imitando um velho gesto que os primitivos costumavam chamar sorriso.
são carlos, junho de 2012.
são carlos, junho de 2012.
Marcadores:
prosa
ariadne
girandolava. amava a cor que fazia no de tarde. seus olhos perdiam o pra lá fazendo a curva. o sol. todo aquele amarelho afundando no colo do longe. tudo. ariadne, outrora tão pequena coisa, agora um perfume que não sai da manga de flanela, um nada dos olhos dela nos olhos dele desligados no infinito. as mãos fechadas tentavam condensar a vertigem, apertadas até sangrar. desaparecer como espuma no avesso do mundo, como podia essa coisa? aqueles jequitibás cheios de musgo e silêncio, ariadne engalfinhada nas raízes cheirando um livro: um intervalo entre o vazio. aquele homem dormindo na rua outro dia usava as meias da namorada morta, deformadas nos seus pés. falando sozinho nos mercados, trabalhando como podia, fazendo pesquisas de interesse para uma empresa de sabonetes. morrendo todos os dias, se transformando sempre em outra coisa. um ódio do mundo. palavras duras. da última vez que o viu, seus olhos haviam quase desaparecido por trás da crosta de pele. não existe luto senão o de nós próprios. nós, que ficamos. e vemos todos os dias as mesmas coisas, minguando como elas, cheios de lembranças e sentimentos sem nome. presos na finitude de cores e palavras, aguardando o arremate final nas incertezas que alicerçam todo recuo. por hora, deixava-se escorrer atravéz das fendas dos olhos, em forma de rio, quente ainda, mas refrescando depois, por que até o calor acaba. a cabeça ficava tonta com seus rodopios, e era bom perder o centro, cair, recomeçar. os pés sobre a terra eram tudo que ele tinha.
são carlos, março de 2012.
são carlos, março de 2012.
Marcadores:
prosa
sim, doutor. obrigado.
o médico falou que vou morrer de bebida. eu olhei nos olhos dele e disse doutor eu já fui abstêmio eu sei você quando fecha o dia abre uma garrafa de gim e esquece das histórias desses milhares de pobres coitados que você extorque. porque você não sabe as respostas pelas quais cobra. eu já fui santo, doutor, funcionário público casado. já tive viço firmeza honradez. tudo isso abstêmio. só que meu corpo achou um modo de me punir por isso, claro. em contrapartida da minha auréola picareta, me atacou um refluxo uma dor no bucho uma saliva amargosa. comecei a ficar doente doutor, e morria disso não fosse - palavra - o copo. não fosse o álcool eu nem vivo mais tava. liberdade é administrar a própria morte. não, eu não disse isso. só disse sim doutor. obrigado. sim doutor, obrigado. .......................sim....................................................................................................................................................................................doutor............................................................................................................................................................................................................................obrigado....................................................................................................... ele escreve a receita. esguicha álcool num paninho e esfrega nas mãos rapidamente. depois sai do consultório. tenho certeza que vai cheirar farinha. saio meus olhos queimam como num deserto. encontro alguma ordem oculta na posição do prédios da avenida prestes maia. a cidade é mesmo um tipo de animal. um animal sem forma, crescendo pra todos as direções, gemendo ferro retorcido e pedra e vômito. e as caixas de supermercado todas ali com as famílias e os seguranças e os vizinhos das famílias das caixas de supermercado. o bicho vivendo do dejeto e da fina arquitetura desses homenzinhos que correm como galinhas dos carros. se eu morrer de alguma coisa, doutor, vai ser de viver nesta cidade.
Marcadores:
prosa
hermes
hermes apertou as tâmaras gorduchas. o sol mordia sua pele, subia o sangue enrubescendo as bochechas. pensava na silenciosa e adstringente lesma do tempo, e nas horas que poderia ficar ali mordendo aquela carne doce, esquecendo. apenas esquecendo. talvez porque soubesse que deixar-se estar era correr veloz. sabia a vertigem de permanecer e a falsa mudança de perder-se em cidades desconhecidas: a cada esquina via sempre a mesma esquina nova, a cada volta a novidade do retorno - aquele cahorro não estava ali antes. quede aquelas castanhas? gostava de olhar as feirantes manuseando, falando das vantagens do seu repolho com rigor e precisão. qualquer demora na oferta empobrecia a urgência que devia nascer na cabeça do freguês como um bonsai: grande e pequena. e viva, sobretudo. enquanto desempanhavam a retórica do livre mercado, hermes deixava-se verter pelos aromas e cores e timbres, como a superfície de um lago vê passarem os seixos na correnteza. o rádio ligado sobre um caixote dizia tragédias e os números da loto. a cabeçacoração de hermes sondava o alguém poder prever o futuro e ter esperança ao mesmo tempo. o coraçãocabeça calculava as chances de ganhar sem nunca ter jogado. e dava o mesmo número.
Marcadores:
prosa
helena/Helena
helena
me chama pernóstico. eu replico: místico. talvez um tanto histérico. o horóscopo na mão, copo no colo, colo a boca no gim: como eu gostaria de saber o fim. você me olha de solsaio [sempre quis dizer solsaio]: trágico. e nisso você tem razão. saber o fim: olha bem, essa bebida acaba. eu acabo, você, teus olhos de mel, tuas coxas, tudo. e ninguém precisa me dizer. eu apenas leio o mundo. hermético. como um tuppleware? não helena, como um alquimista. eu transmuto por exemplo este fumo em fogo, o fogo em cinzas e fumaça. e depois o câncer, sabe. e este me transmuta em nada. é um poder banal, mas que as pessoas ignoram pelo prazer da inocência: não fui eu quem quis, foi acidente... sei. quando morre alguém fica sempre aquela culpa e ninguém sabe de onde vem. finge não saber. sim a culpa é sempre tua. por que você existe. por que estava lá pra ver. porque deu nome a tudo e tudo morre por ter nome. se você não se chamasse helena era valquíria ou magdalena ou antônia, josefina, claudia, aurorofélia sim. nome de mulher, e mulher morre. morre tudo, helena, até pedra. ergo meus olhos por sobre o caderno esportivo, helena enfiada no computador. como dói ver uma mulher tão linda concentrada desse jeito. te queria distraída, helena. como vapor espiralado, música distante, te queria assim um bicho lento que a gente olha e fica lento junto. mas você é que nem pássaro. todos os teus sentidos têm uma importância vital. presa fácil mas veloz. não pisca. nunca vi tuas pálpebras, por exemplo. quando você dorme fica uma névoa no teu rosto. só dá pra ver o véu translúcido que te separa do mundo. quando desperta o sol ascende. quando e somente se. porque helena, se você dormisse para sempre nem amanhecia. tenho certeza, já disse, eu leio. então você é um tipo de motor, teu chefe te explora e olha teu decote. ele não sabe que o sol é culpa tua, que teu nome no fim é tua causa mortis. o babaca diz, helena traz pra mim aqueles relatórios, confere os contra-cheques, checa o malote, solta o cabelo. como se apertasse botões em você, o idiota. estrambólico, você se deixa cair sorrindo. eu me levanto e pulo pra debaixo dos teus cabelos. uma coisa que não aprendi a ler é o corpo de helena. toco a luz baixa nos seus flancos, acaricio as réstias projetadas, os reflexos moventes da rua que atravessam o tempo deslizando no seu torso dóreo. fugidia sempre, esguio enigma. toco tua coisa, enfim, e você quase que some, pirilampa como estrobo. eu abro a densa cortina de cabelos que procuram minha boca, e, assim no contrapé quase vejo suas pálpebras, e é como se o tecido do real se arrebentasse. então teu nome já não te determina. um tipo de compreensão que pretendo te roubar um dia.
Helena
Sim. Vou porque me pese o tempo. Porque já doure meu sol de setembro tua pele de maio. Porque meu calendário amofine ante a tartaruga imóvel que não pára de crescer:
- Sou eu que envelheço, ou é minha cidade? Sim. Vou porque meus olhos transbordem futuro enquanto meus peitos caem. Porque eu tenha o ofício das nuvens, porque meu ventre esteja úmido e capaz de anelo. Poque Helena, me criei do nada: o nada da tua mão, pois há o abismo, o nada dos teus braços caninos, das tuas costelas, sim. O nada enrodilhado na concha fria da tua orelha, no Teu, que tanto gostavas que eu nele me esfregasse toda, manhosa: eu Helena, parida dos poros da ausência, Helena ciosa do pleno, das secreções terrenas, verdejante: me vou. Porque para nascer do impossível tive que assassiná-lo com meus dentes. E é com estes mesmos dentes que agora sorrio quando imagino a tua cara de cão, as mãos congeladas no gesto da procura de um copo que cai, e um murmúrio abafado que não te chega a sair da garganta: sou eu, Helena de vidro, e caio das tuas mãos em um mosaico cristalino.
me chama pernóstico. eu replico: místico. talvez um tanto histérico. o horóscopo na mão, copo no colo, colo a boca no gim: como eu gostaria de saber o fim. você me olha de solsaio [sempre quis dizer solsaio]: trágico. e nisso você tem razão. saber o fim: olha bem, essa bebida acaba. eu acabo, você, teus olhos de mel, tuas coxas, tudo. e ninguém precisa me dizer. eu apenas leio o mundo. hermético. como um tuppleware? não helena, como um alquimista. eu transmuto por exemplo este fumo em fogo, o fogo em cinzas e fumaça. e depois o câncer, sabe. e este me transmuta em nada. é um poder banal, mas que as pessoas ignoram pelo prazer da inocência: não fui eu quem quis, foi acidente... sei. quando morre alguém fica sempre aquela culpa e ninguém sabe de onde vem. finge não saber. sim a culpa é sempre tua. por que você existe. por que estava lá pra ver. porque deu nome a tudo e tudo morre por ter nome. se você não se chamasse helena era valquíria ou magdalena ou antônia, josefina, claudia, aurorofélia sim. nome de mulher, e mulher morre. morre tudo, helena, até pedra. ergo meus olhos por sobre o caderno esportivo, helena enfiada no computador. como dói ver uma mulher tão linda concentrada desse jeito. te queria distraída, helena. como vapor espiralado, música distante, te queria assim um bicho lento que a gente olha e fica lento junto. mas você é que nem pássaro. todos os teus sentidos têm uma importância vital. presa fácil mas veloz. não pisca. nunca vi tuas pálpebras, por exemplo. quando você dorme fica uma névoa no teu rosto. só dá pra ver o véu translúcido que te separa do mundo. quando desperta o sol ascende. quando e somente se. porque helena, se você dormisse para sempre nem amanhecia. tenho certeza, já disse, eu leio. então você é um tipo de motor, teu chefe te explora e olha teu decote. ele não sabe que o sol é culpa tua, que teu nome no fim é tua causa mortis. o babaca diz, helena traz pra mim aqueles relatórios, confere os contra-cheques, checa o malote, solta o cabelo. como se apertasse botões em você, o idiota. estrambólico, você se deixa cair sorrindo. eu me levanto e pulo pra debaixo dos teus cabelos. uma coisa que não aprendi a ler é o corpo de helena. toco a luz baixa nos seus flancos, acaricio as réstias projetadas, os reflexos moventes da rua que atravessam o tempo deslizando no seu torso dóreo. fugidia sempre, esguio enigma. toco tua coisa, enfim, e você quase que some, pirilampa como estrobo. eu abro a densa cortina de cabelos que procuram minha boca, e, assim no contrapé quase vejo suas pálpebras, e é como se o tecido do real se arrebentasse. então teu nome já não te determina. um tipo de compreensão que pretendo te roubar um dia.
Helena
Sim. Vou porque me pese o tempo. Porque já doure meu sol de setembro tua pele de maio. Porque meu calendário amofine ante a tartaruga imóvel que não pára de crescer:
- Sou eu que envelheço, ou é minha cidade? Sim. Vou porque meus olhos transbordem futuro enquanto meus peitos caem. Porque eu tenha o ofício das nuvens, porque meu ventre esteja úmido e capaz de anelo. Poque Helena, me criei do nada: o nada da tua mão, pois há o abismo, o nada dos teus braços caninos, das tuas costelas, sim. O nada enrodilhado na concha fria da tua orelha, no Teu, que tanto gostavas que eu nele me esfregasse toda, manhosa: eu Helena, parida dos poros da ausência, Helena ciosa do pleno, das secreções terrenas, verdejante: me vou. Porque para nascer do impossível tive que assassiná-lo com meus dentes. E é com estes mesmos dentes que agora sorrio quando imagino a tua cara de cão, as mãos congeladas no gesto da procura de um copo que cai, e um murmúrio abafado que não te chega a sair da garganta: sou eu, Helena de vidro, e caio das tuas mãos em um mosaico cristalino.
IV
Desenredar um colar de contas como encantasse as horas da insônia. Pesado, meu corpo rola no escuro do quarto, que se funde ao escuro do deus pelo fio delgado da seiva do tempo. No fundo fico repetindo o começo de um romance que nunca terminei, procurando em mim mesmo a invenção que já se deflagrou, e que me compõe como a água e o silício. E por ter me trazido até aqui, esta idéia difusa que me orienta, é também um limite, um orla rasa onde meus pés começam já a pisar o solo poroso e quente que me obriga um corpo denso, que por sua vez me obriga sentidos afeitos à suspeita ordem geométrica, que me obriga ainda, a distração dos peixes, a gana dos gatos.
Então me elevo, mamífero superior, mandíbulas aptas ao canto - não há verdade fora do canto - carregando nas mãos a lira e o astrolábio. E quanto mais distante me precipito, mais os meus contornos rarefazem, me tornando idêntico ao que já era no princípio. Mas neste ponto você já adormeceu, e a noite nos separa em dois reinos - a pura exterioridade dos objetos inertes, a interioridade eloquente metafísica dos tolos.
III
Me lembro: a luz lanosa de uma tarde vinha lhe cobrir o colo de nectarinas. Você pensava - nunca soube o que você pensava. Quando estava só parecia mais um aquário - onde o que vemos é o movimento aleatório das partículas, a superfície sensível do pensamento. E que não se ouse duvidar da ordem geométrica secreta que operava aquela máquina serena, comtemplando as formas de um besouro. Cuspia o fio de linha que lhe sobrara nos beiços enquanto cozia - pela terceira vez - uma velha calça minha. As coisas amarelas tinham seu modo de ser. E você distribuía amarelisse às crianças dos vizinhos, aos gatos que vinham pedir leite e carne moída, às chuvas sem prenúncio, aos dentes de leão.
Marcadores:
Ou Isso.,
prosa,
Taraxacum officinale
II
Sem o suporte do olhos, abrindo a boca como um pássaro, gemendo coisas em línguas, sim. Relâmpago lento em cavalos de lã. E começava a babar uns nomes, misturar pessoas em quiasmas caprichosos, o tempo voltando - a casavelha onde passarávamos as tardes, lembra? As paredes apodrecendo, trabalhadas pelas mãos frias da visita indesejada. No colo, o jornal espetava os acontecimentos como insetos. Era próprio das notícias serem póstumas, o que te incomodava. Você pegava os rola-bostas num pequeno guardanapo e devolvia-os pra bosta, onde podiam trabalhar e amar. E até um coisinho dum formigo era um passarinho pra você.
Escrevo daqui. Sem as batatas que só você. Com um amor mudo, bruto, inconfessado. Todo teu. E ainda não sei o nome de muitas coisas, então eu descrevo pra você usando uma imitação das coisas. Porque, sabe, não sei senão contar. E contar é meu modo de ficar em silêncio - ando sem sair de mim. Mariposas no lugar dos olhos. Eu sei que você não pode ouvir. Mas tudo é tão pouco que possível me parece belo. E possível sempre é, mesmo que não seja. Existe sempre o velho recurso ao sonho: e daí ele acordou e descobriu que sonhara. E porque não começar assim?
Marcadores:
Onthophagus gazella,
Ou Isso.,
prosa
I
É sempre o recomeço. Porque não me engano, o acúmulo, quando não é mera ilusão, é âncora. Porque a busca de uma forma pode estar sub-repticiamente em núpcias com a fuga da forma. E daí se foge em vão, pensando estar livre, no seio da invenção, quando apenas repete-se. Por isso o recomeço, a folha branca. Mas não é que a forma em si mesma seja ruim. O que ela traz de gesso é que preocupa. Então estou à procura de rachaduras por onde possa escoar o que interessa - a matéria do oco no corpo do texto. E se rachaduras não houver, me sirvo de um martelo. Tudo com muita delicadeza, para preservar um mínimo de corpo. Ou talvez eu esteja Novamente repetindo. E se for assim, que seja. Colar as peças é sempre a parte divertida.
Assinar:
Postagens (Atom)
outras postagens
Arquivo do blog
-
►
2012
(56)
- ► agosto 2012 (18)
- ► setembro 2012 (10)
- ► outubro 2012 (9)
- ► dezembro 2012 (1)
-
►
2013
(28)
- ► agosto 2013 (1)
- ► setembro 2013 (1)
-
►
2014
(5)
- ► janeiro 2014 (1)
- ► março 2014 (1)
- ► abril 2014 (1)
- ► setembro 2014 (1)
-
▼
2016
(1)
- ▼ abril 2016 (1)