canto longe do mar


é possível, por exemplo
que a curvatura do mar
tenha o teu modo de sorrir
ou brinque com os teus pássaros
e durma nos teus ombros

você, que sustém o azul
e distribui as linhas
                que do sol ao sul
       se enovelam nos meus dedos
é possível
que durante o sono das formas
         haja onde morrer um barco
       entre os vazios que se procuram cegos
                     separados por lençóis de espuma

escusas

cada folha deste arranjo
pretende ter (pedem
que lhes conceda ter),
na forma manifesta de um risco:


a densidade de uma 

mola contraída

e a extensão de um


cisco.


escrita é cavar na página um fosso tinto de silêncio.


o sumiço do chapéu

a conquista da inércia pelo homem aconteceu depois do tempo. lembro-me perfeitamente: era quase sábado, todos os bares calados. um vulto embriagado cruzou a avenida e avançou com convicção, ainda que houvesse a dúvida do passo seguinte. as buzinas o fazia dançar como um macaco num tortuoso rito. ao chegar do outro lado o homem viu que havia esquecido seu chapéu. deu de ombros e viveu sua vida sem voltar por sobre os passos, aposentou-se no setor imobiliário e morreu de alguma causa (como houvesse causa para o equívoco) natural. o chapéu, no entanto, permaneceu. a fuligem deu lustro ao chapéu, a chuva lhe trouxe musgo. a cidade cresceu em volta do chapéu, pessoas passavam  e diziam: pobre chapéu, tão engraçado. até que debaixo do chapéu fermentou-se o que relevou ser um vulto de macaco. e ele cresceu do concreto onde o chapéu jazia, tão lentamente que ninguém percebeu. no momento de estar completamente pronto, do tamanho de um homem real, retomou seu trôpego périplo do ponto em que fora interrompido.


Morena

Morena tinha durinhos os bicos do peito. Por trás da fina malha de algodão, quase me perfuravam as vistas, de modo que, para lhe falar, me era preciso olhá-la de resvalo, a quarenta graus. O tempo, Morena, é de tal natureza, eu lhe dizia. Sacana que a gente nem sabe. Toda metafísica do mundo contra os bicos do peito de Morena. E continuava: há uma espessura do agora, uma carne do tempo que nos envolve e encerra. Aqui, nunca estamos sem que já tenhamos passado. Chegamos atrasados ao encontro de nós mesmos quando lá da ponta nos dizemos: há quanto tempo, e blá. Tudo se consome no fogo. Eu e você, teus indefectíveis peitos. E depois, tudo se renova, exatamente igual: haverá - como houve - um dia exatamente igual a este, embora outro. E você vestirá esta mesma malha branca, e eu direi com a mesma boca, embora outra, estas mesmas-outras palavras. E novamente há cinco anos teremos nos conhecido no beco mais sujo da cidade, você dizendo seus delírios familiares, eu inventando teorias. Nosso encontro esperara por nós desde antes de tudo. Também este som oco dos laços rompendo, o bater de dentes e as lágrimas frias, tudo isso nos pertencia... nos pertencerá. Essa dor é somente um termo de uma série toda distendida, um nó do tempo que atravessamos cegos. E também ela vai se consumir em seu próprio elã. E pela infinitésima vez, o vento soprará a novidade sobre cada um de nós. E novamente o encontro casual em um supermercado, você com cabelos tingidos, eu mais gordo, ambos desbastados pela constante maré dos acontecimentos, seremos apenas um eco difuso e poroso do que fôramos, como a falsificação de si mesmas que as cigarras abandonam pelas árvores. Nos diremos felizes com sorrisos pesados, e nos deixaremos como crivados nos dias mais vivos, de onde nos acenamos sem feridas. Morena, impassível, levanta. Num gesto de mil anos me abre os braços. Os peitos me roçam perfurando meu corpo. Há uma coisa que nunca se repete: enquanto Morena se afasta, é sempre outra a primeira folha que pousa sobre minha mão, que espera.

poeta crônico

dar ao nome dor
um ente

eis talvez a sina
a que se destina
este teu cantor

mesmo que essa dor
seja dor de dente

náufrago

na dança do redor em torno de si
a poesia é meu modo de ficar parado

ancorado no epicentro do vórtice
suporto um corpo que me suporta

sem respeito pela sucessão dos fatos
entremeado por todas as horas

dormidas
vindouras
presentes

atiro garrafas ao mar
perdendo horizontes
e zênites


arroto

a poesia acontece aqui fora
perto das latas
e das sacolas plásticas
entre o riso de marina
e um besouro no jardim

nunca um poema reinvindica biblioteca
que é pro poema como que o jazigo
onde os pranteadores vêm nutrir a fleuma
sem jamais tocar
sua matéria indócil

também não vem de um dentro
que a estrutura do poeta é mera humana víscera:
o poema não habita o abscôndito
antes flana entre os quintais
onde um grilo canta sem ser visto
ou nos bares onde um capiau cochila


nas roupas batidas na pedra
no amor nascido e já enfermo
de uma repentina adolescente

o poema espreita os tolos
e se lhes alfineta a barra
das calças, e sobe pelas pernas
dedilhando as vértebras
ensaiando já a música
que lhe dará corpo


mas às vezes se apreguiça

e vira arroto.

encontro no turbilhão



estou do avesso
aqui não tem nome
você não sei
se pelo fio
de luz
corporifica o canto

mas o súbito
anjo ventríloquo
me imputa o ato livre
e cá estou
absurdo
dissolvido
no protoplasma
em que memória
e mundo
são ditos o mesmo

a nuvem de pássaros
insiste no gris
e turva um horizonte
bailarino
onde toda coisa
é um encontro
com toda outra

mas estou velho para esboços
e esqueço teu rosto
na quadratura de um círculo

poemapedra

escrevi este poema
sem beleza ou rima
sem pudor
nem valor de mercado

um poema até
devo confessar
sem graça

um poemapedra
para uma voz-parábola
cujo destino me ultrapassa

com este poema embrulhe um peixe
enxugue as lágrimas
enfie este poema no cóxis
coma este poema
faça com ele um tsuru
muita coisa com ele
não pode mesmo ser feita
mas o pouco que se pode
faça

pegue por exemplo
com a paixão dos entediados
e atire na vidraça
na polícia
dê de comer aos pombos
aos andarilhos
em pequenos picadilhos indigestos

ou apenas abandone-o
como o caminho abandona
o caminhante

um mote

“Pois mesmo o vazio é uma sensação, toda sensação se compõe com o vazio, compondo-se consigo, tudo se mantém sobre a terra e no ar, e conserva o vazio, se conserva no vazio conservando-se a si mesmo. Uma tela pode ser inteiramente preenchida, a ponto de que mesmo o ar não passe mais por ela; mas algo só é uma obra de arte se, como diz o pintor chinês, guarda vazios suficientes para permitir que neles saltem cavalos” (G. Deleuze, citando  Huang Pin-hung)



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