canto veloz à cidade

                                        vos saúdo sarjetas imundas,
                            que jamais me abandonaram!

         máquina mordaz que nos encerra, te devolvo a indiferença
                                      com que tu nos acalanta
                                                           em noites de pedra!

                 te ofereço minha bile e meu trinado escasso
                                    e todas as noites te brindo,
                          relicário ignoto de ofícios batidos em papel carbono e
                                                     merda!                
              que meu mudo esgar ecoe por tuas artérias podres
       como um pássaro decepado
                                      para que, levantados do pó,
                 meus irmãos comigo dancem
                                                                      até que não haja senão
          música em todas coisas!
                                        música em todas coisas!

azul exílio

miro [e meus olhos são escunas
                 famintas de horizonte]


          um onde sem nome,
          lugar sem aqui

                   aceno de lá para mim
                       e me chego azulado

        cá eu no cais [venta
        um véu de nuvens]


               tenho raízes movediças
                       e mãos frias. cativo

      do ocaso, desenho
esta bandeira:

           no arremate entre dois infinitos
                  o sol me devolve o riso.

retrato

os dentes do vento no pescoço de helise a farpa do corpo no vento sem nome lugar resina ou foda-se fazia frio não me lembro frio é um nome oco aquilo na tua pele que te queima ou excita é uma poeira mais leve uma farpa
                                                       um fiapo
                                                                       um fio

jamais estarei pronto para tua carta. ou para tua boca.
                 mas o mundo nos fodendo não me roubará o encanto de ver pela primeira vez as tuas tetas
tua ferida
              a solidão de nos saber desencontrados como membros sem um corpo

choramos certa vez pelas pombas do terminal
                                             sujas e mutiladas
hospedamos os fantasmas do pó
mas caídas as caras das cabeças
nos olhamos estranhados
e ainda ali estávamos
úmidos
            complementares
                                             vejo ainda:
         dissolvidos no ruído como grãos
nossas mãos buscando um gesto pífio
           e  nossas bocas como âncoras:
                                                              sorriem!

fotograma

lá onde as formas vacilam
mal delimitados corpos 
dançam a voz da matéria

quando há festa
mesmo a fuligem
cintila

galo

quão difícil é um galo

fere a primeira estrela
tramado em sangue e nuvem
como se no fio dourado de seu grito
girasse a roda faminta dos dias.

um galo o que é
senão a linha de um embate
ou as curvas de um fado?

canto sob o sol

tento puxar os cabelos do sol


mas a palavra é mais densa que o vento
         por isso meus versos caem


                      um


                                          a


        um


no opaco abismo


                                  da página



vejo subirem teus ramos
              no vértice da janela;


                                      o gato não dorme:
                                       pedra-se


                                   pois sabe mais a pedra
                                   do que não permanece,


                                                         e a presa
                                                   não suspeita
                                      um predador

inerte.

canto à espera do sol


 te apresento meus braços.
                       estão atados.
                       piso sobre as farpas de um inverno renitente.
                                               e espero o sol.

nada
menos.

                            um buraco;
                            uma órbita sem olho;
                            um crânio sem nome;
                            um nome sem dono;
um sorriso puxado pelas garras da terra:

                                           vejo os cavalos,
                    mares de cavalos negros migram,
            e uma revoada de fuligem e guardanapos velhos
                                             borra um céu sem promessas.

      setembro se foi
                                   como a pétala de cobre que esquecemos sobre as cinzas.
           ou se foi gerânio
           já não é.

poemas ríspidos e rápidos

dá até pra ler cagando.

1 anamnese
[desomenagem às rondas ostensivas tobias aguiar]

parabéns assassinos.
vocês são os heróis de uma crosta doente do mundo.
agradeço por cada gesto de brutalidade,
pois sem eles eu jamais reconheceria
a urgência do meu vômito.

2 pronunciamento
[aos retardatários do anacronismo]

a província federativa do brasil
declara publicamente
seu amor à subserviência
e ao temor de seu
povo.

3 notícia
[dos facínoras em seus gabinetes]

governo americano vingará mortes de crianças na síria
matando crianças na síria.

4 metapoética
[porque uma vez por ano é carnaval]

este poema ri dos que 
tem medo dos que riem.

canto entre os escombros

lágrimas nas mãos espreito
                                teu caudaloso dorso:
                                            caudaloso
                            como o
               som dos
alaúdes.

                     no entorno da tua cintura
     o mundo todo freme
                                          num amálgama de
                        fogo
e finitude.

                    a verve dos tambores te supõe
                    neutra esfinge entre panteras

e enquanto a cidade queima sob o vômito geral embrulhada nas pálidas notícias
como um peixe povoado por defuntos
                     
                       o estrondoso dialeto dos tambores
            distribui seu alfabeto no rastro
luminoso
                 das tuas pernas.

luz do tango [astor piazzola e geraldo carneiro]



o cravo a crise o crime
nas barbas da polícia a malícia
a miss a missa o dia dos mortos
o luxo o lustre a luz negra
do Hotel da lua a lua nua
e crua
o carnaval a corda
o coelho na cartola o cuba libre
o gosto da chacina o sinal a sina
o sangue na anágua
n'água n'água n'água n'água
a lira o franco o marco
a bolsa abriu em baixa
o berço o barco o barão
na corda bamba a muamba
o banquete do mendigo a ruiva
rumba a ruiva rumba
a trama a chama o drama
a desgraça da família o karma
a ilha a trombeta de arcanjo
o apocalipse não é o fim do mundo
o rum o rock o rádio
a cama
o sacramento extremo
o mal de sete pecados
os sete lados do conto do vigário
o terceiro páreo
o trato com o demo
o demo o demo
a fome a forca o frio
a falência do cinema
o poder a pena
o cheiro da morena
a viúva a uva as estrelas do passado
a farsa o furto o foxe o fado
canto secreto o cego
cantava na viola o sequestro
o sestro o bolero na vitrola
o terceiro mundo no fundo
quer é reco reco a porta o pau
o prego
o fogo o jogo o giro
o rastro do vampiro o traço
o tiro o programa de auditório
o circo a sanha
o sal não fica sem troco
o cravo a crise o crime
a desgraça da família o luxo o lustre
a luz do dia dos mortos
o peixe a porta
o pau não fica sem troco
o troco
a fome o fogo o frio
o banquete do mendigo
a muamba o mambo
nas barbas da polícia
a marca a mãe o mal
não fica sem troco

glândula

de contar jabuticabas ficou os dedos rubros, dava um nome cabeludo à sua vulva: Hilé, porque vermelha, inteligível, pura.
- as leis desviam quando ela dança.
eu aceno um suicídio na ponta da luz,
ela me devolve as cortinas pesadas do esquecimento.

ficou uma molécula de Hilé no meu pranto.


grão


"no princípio era o caos..."



esculpir o silêncio num corpo denso de mármore.
encontrar do silêncio a primeira pele.
embeber a pele do silêncio em azeite.
acarinhar com fogo a pele do silêncio.
envolvê-lo num arco de zinco e alumínio.
do silêncio ver emergir a necessidade do pandeiro.
pleno, fluente na língua dos primeiros santos, couro teso e grávido de estrondo.
do casamento dos sons a dança ver-se erguer em barro.
talhadas pelo tempo as bailarinas incorpóreas desenham no céu o trajeto dos planetas
ponteiros de um relógio epiléptico.
presença luscopaca semilágrima do caos secretada o samba é a silhueta silibina recortada contra o fundo de um murmúrio indiferenciado.
passam os carros, estilhaçam-se os copos, riem as damas, os rapazes;
o samba
navalha cujo fio tece um bordão, um trinado,
uma mortalha, surge contra a fuligem burocrática da cidade e macula de esperma e sangue
os relatórios de caixa ao senhor
diretor.
- amor e ódio coabitam a boca da noite. é sábado.
a síncope do samba reverbera no concreto armado.

de barriga para cima, um cão sonha um mundo de comida.

Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas - fragmento [Vladimir Maiakovski]

Para nós,
a rima
é um barril.
Barril de dinamite.
O verso, um estopim.
A linha se incendeia
e quando chega ao fim
explode
e a cidade em estrofe
voa em mil.

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