en garde


sem grana
nem granada

espero o espanto
virar espada

agrimensor do mundo

1.
enumero com rigor
o redor imediato.
constato: somadas
as coisas, o mundo
me falta.

2.
capturo do iminente
a exata manobra:
contados os fatos,
o mundo me sobra

compêndio

fiz um volumoso compêndio
dos grandes pensadores
que falaram do amor

e posso resumir em duas palavras:
- ai, ai...

poetas póstumos

exumá-los
fumar-lhes
os miolos
atirá-los
aos tolos
como pérolas
aos poucos

esfregá-los
nas bocas
dos mornos
como sabão
para fazer
falar
palavrão

enfiá-los
nos cus
de acadêmicos
caducos
nos ralos
dos banheiros
públicos:
serpentina
de pentelhos
báquicos


cortá-los a
carne fétida

em talos
e atá-los
ao manto
dos pálidos
cânones
para depois

de tanto

estrangulá-los

com a própria
métrica
e soterrá-los
sob o

próprio
canto

res extensa

o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o
corpo
do
poema
tem
uma
forma
no
espaço

/polindo lentes ainda/

/ainda que me cerquem mares/
/nas órbitas dos olhos agrestes/

/insuflando as flâmulas/
/graves dos becos/
/no interlúdio/
/entre os sóis/

/ainda que me corte a pele/
/o frio que me escancara o poro/

/ainda e apesar dos barcos abandonados no sono/

/ainda e ao final de um trago/
/do charco horizontal do azul/
/entre o gris que o porvir convida/
/a voltar por sobre os passos/
/e a revolta das cores contra as formas/

/serei cego ainda que meus olhos/
/sejam luz/
/e anoiteçam gardênias/
Se o prazer do cavalo do cão e do homem é diferente
Se asnos prefeririam palha à ouro
Por quê então o homem ao gozar do ouro
Comporta-se como um cão e age como um asno?


(Alexandre Magno)

espaço e transparência

para que o poema galgasse meu

CAVALO BRANCO

cavei um vazio entre estes versos

tonho dodói

velho como o vento, jurava ter descabaçado a lua. os olhos vítreos brincando os vultos. incapazes de cena: pro sinhor vê, que de tanta lonjura despenquei da pretidão, e cá o joelho instrupiô. por um momento movia os lábios em silêncio, cheios de sulcos no redor. a língua dançava entre os raros dentes, recordava. o dedo apontando - foi quando em menino, nem tinha aivão nem nada. mãezinha me tocou pro mato, modo eu catar estrela, contava. alva música ondulava no sonhamento do velho, no contra-ocre da terra batida. como de dentro de um aquário, sondava as coisas turvas estrangeiras, cheias de luzes: pequenas estrelinhas nas mãos dos rapazes e das meninas que iam e vinham na rua que ele vira crescer. eles levavam as luzinhas ao rosto e falavam. como conversando com candeeiros. mas isso ele também fez muito, de menino. mastigou, cuspiu, levou o braço à boca. a lua nunca brilhou tanto como naquele dia, explicou. ele também ficou bem uns sete meses coberto por um pó de luz que banho nenhum tirava. passava os dias sonhando, escrevinhando coisas. os meninos apontavam, olha lá o tonho dodói. mas ele sabia que encantamento não era doença. que doença fazia a gente amarelo, fraco, molengo. isso não podia ser, sabia. quando na lua subiram uns homens, ele ficou injuriado: pisarem no meu bem, espetando coisas, tirando pedaço. triste, ele andou por dias. quando voltou era outro. diz-se que o menino ficou e mandou no lugar este senhor, para sentar nesta cadeira de vime, mastigar mato e cuspir e lembrar. dizem também que o pó de luz formou um rastro, e que se a gente seguir, vai encontrar o menino atracado à lua, trêmulos os dois, de um amor mais verdadeiro que o mundo. coisa que se conta por aqui, e que não se inventa duvidar.  

são carlos, março de 2012.

A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha [ Vladimir Maiakóvski]



A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava.
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato.
E de manhã
outra vez
por toda parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
“Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!”
E grito ao sol:
“Parasita!
Você, aí, a flanar pelos ares,
e eu, aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!”
E grito ao sol:
“Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?”
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas,
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com voz de baixo:
“Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!”
Lágrimas nas pontas dos olhos
-e o calor me fazia desvairar-
eu lhe mostro o samovar:
“Pois bem,
sente-se astro!”
Quem mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
Eo sol:
“Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!”
Conversamos até a noite
ou até o que ,antes ,eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro,
estou batendo no seu ombro.
E o sol por fim:
“Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.”
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo o mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

(traduzido por augusto de campos)

o pão a carne o tempo

onde morre a vertical dourada
depois de cortar a pele azul
brumosa da minha pátria
que não é pátria

lá planeio fazer de palha
um poema

e amarei uma mulher mortalha

decepado cruzarei o sul
deste país sem nome
onde plantarei meus olhos

:

salpicado de sardas

a face cortada num dorido sol

sobre a tez de milho moreno
lá enterrarei meus mortos

e meus pés beijarão a descarnada  fronte de meu pai
e minhas mãos mapearão os veios do rosto de minha mãe
sangue pétala carvalho
o coração na caixa esperando
o fio que me liberta do imóvel
sinto pelos meus dentes que mordo
o pão
a carne
o tempo
Se eu fosse um desenhista
Faria um rato farejando uma boceta
Dois vazios se encarando
E o desgraçado do torturador
Adorando com sua caceta.


Isso aconteceu no Chile
E vai saber onde mais nas ditas cujas dita duras.


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Se um dia
Caminhando ali perto do porto
Eu encontrar a Macabéia
Lhe darei meus peixes
Para habitar seus ovários secos.


(Alexandre Magno)

mandinga para desbloqueio da traquéia

cedo um anjo escuro me cuspiu a sina:
errar como um poeta,
sem largar a pena.

pois consta que larguei a pena
e hoje verso a tocos de carvão,
fiapos de vento que os prédios assobiam,
baba de abelhas findo expediente.

consta que larguei o ofício
muito lento do não dizer dizendo
e comecei a soluçar em línguas:

orumcatabê saracatabá deserto
que o caminho 

é o ninho do
incerto

complico:
a mais bê abelha;
os acidentes são por minha conta
& risco.


daí que o anjo fedegoso
alçou as pelancudas asinhas
e (galináceo que sempre se soubera)
voou voou

houve chuva de penas pardas
e eu voltei a esganiçar poemas.

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