helena/Helena

helena

me chama pernóstico. eu replico: místico. talvez um tanto histérico. o horóscopo na mão, copo no colo, colo a boca no gim: como eu gostaria de saber o fim. você me olha de solsaio [sempre quis dizer solsaio]: trágico. e nisso você tem razão. saber o fim: olha bem, essa bebida acaba. eu acabo, você, teus olhos de mel, tuas coxas, tudo. e ninguém precisa me dizer. eu apenas leio o mundo. hermético. como um tuppleware? não helena, como um alquimista. eu transmuto por exemplo este fumo em fogo, o fogo em cinzas e fumaça. e depois o câncer, sabe. e este me transmuta em nada. é um poder banal, mas que as pessoas ignoram pelo prazer da inocência: não fui eu quem quis, foi acidente... sei. quando morre alguém fica sempre aquela culpa e ninguém sabe de onde vem. finge não saber. sim a culpa é sempre tua. por que você existe. por que estava lá pra ver. porque deu nome a tudo e tudo morre por ter nome. se você não se chamasse helena era valquíria ou magdalena ou antônia, josefina, claudia, aurorofélia sim. nome de mulher, e mulher morre. morre tudo, helena, até pedra. ergo meus olhos por sobre o caderno esportivo, helena enfiada no computador. como dói ver uma mulher tão linda concentrada desse jeito. te queria distraída, helena. como vapor espiralado, música distante, te queria assim um bicho lento que a gente olha e fica lento junto. mas você é que nem pássaro. todos os teus sentidos têm uma importância vital. presa fácil mas veloz. não pisca. nunca vi tuas pálpebras, por exemplo. quando você dorme fica uma névoa no teu rosto. só dá pra ver o véu translúcido que te separa do mundo. quando desperta o sol ascende. quando e somente se. porque helena, se você dormisse para sempre nem amanhecia. tenho certeza, já disse, eu leio. então você é um tipo de motor, teu chefe te explora e olha teu decote. ele não sabe que o sol é culpa tua, que teu nome no fim é tua causa mortis. o babaca diz, helena traz pra mim aqueles relatórios, confere os contra-cheques, checa o malote, solta o cabelo. como se apertasse botões em você, o idiota. estrambólico, você se deixa cair sorrindo. eu me levanto e pulo pra debaixo dos teus cabelos. uma coisa que não aprendi a ler é o corpo de helena. toco a luz baixa nos seus flancos, acaricio as réstias projetadas, os reflexos moventes da rua que atravessam o tempo deslizando no seu torso dóreo. fugidia sempre, esguio enigma. toco tua coisa, enfim, e você quase que some, pirilampa como estrobo. eu abro a densa cortina de cabelos que procuram minha boca, e, assim no contrapé quase vejo suas pálpebras, e é como se o tecido do real se arrebentasse. então teu nome já não te determina. um tipo de compreensão que pretendo te roubar um dia.  


Helena


Sim. Vou porque me pese o tempo. Porque já doure meu sol de setembro tua pele de maio. Porque  meu calendário amofine ante a tartaruga imóvel que não pára de crescer:
- Sou eu que envelheço, ou é minha cidade? Sim. Vou porque meus olhos transbordem futuro enquanto meus peitos caem. Porque eu tenha o ofício das nuvens, porque meu ventre esteja úmido e capaz de anelo. Poque Helena, me criei do nada: o nada da tua mão, pois há o abismo, o nada dos teus braços caninos, das tuas costelas, sim. O nada enrodilhado na concha fria da tua orelha, no Teu, que tanto gostavas que eu nele me esfregasse toda, manhosa: eu Helena, parida dos poros da ausência, Helena ciosa do pleno, das secreções terrenas, verdejante: me vou. Porque para nascer do impossível tive que assassiná-lo com meus dentes. E é com estes mesmos dentes que agora sorrio quando imagino a tua cara de cão, as mãos congeladas no gesto da procura de um copo que cai, e um murmúrio abafado que não te chega a sair da garganta: sou eu, Helena de vidro, e caio das tuas mãos em um mosaico cristalino.

V

Eis a minha pálida membrana. Meu finito fazer-me. Eis a parte onde no meu corpo moram os homúnculos que guardam meu verbo. Porque no resto, há minha vontade de viver. Meu verbo é o que toca o imortal, e por isso, também a morte. A morte é a pura coisidade, o antes que a lâmina descesse cindindo os corpos, quando o abismo e sua vertigem eram um mesmo animal. E por isso minhas mãos tremem. Com elas opero, destrincho ervas e carne, escrevo meu nome. Com as mãos - pendentes nos lados do corpo, âncoras quando se não sabe o que delas, remos, patas, continuidade da voz minguada no branco - terminação de um longo  declive do dizer. 
Mas antes - desenhando todo o tempo, eu mergulhava no silêncio uterino que deve ter a morte. Ou - a coincidência entre ser e agir me sustinha no vão inefável. Eu era o processo que desempenhava, minhas mãos eram definitivamente um caminho. Os caminhos, se me lembro: era dentro de mim que aquelas árvores escondiam suas longas raízes. Eu lhes sabia porque éramos caminho um no outro. O pequeno limoeiro que vi nascer de um galho que arrastava pelas ruas como a um arado, afofando a negridão do asfalto, numa tarde tristinha de domingo. Depois, meu avô içou na terra o que veio a ser um frequentado limoeiro-taiti. Com as mãos, num gesto que parecia ter esperado por séculos. O limoeiro vive, caminho nascido das tuas mãos.

rosa do ventos


bússola no bulbo do vento
me inventa logo um sul aí
porque eu aqui
estou sem sorte

IV


Desenredar um colar de contas como encantasse as horas da insônia. Pesado, meu corpo rola no escuro do quarto, que se funde ao escuro do deus pelo fio delgado da seiva do tempo. No fundo fico repetindo o começo de um romance que nunca terminei, procurando em mim mesmo a invenção que já se deflagrou, e que me compõe como a água e o silício. E por ter me trazido até aqui, esta idéia difusa que me orienta, é também um limite, um orla rasa onde meus pés começam já a pisar o solo poroso e quente que me obriga um corpo denso, que por sua vez me obriga sentidos afeitos à suspeita ordem geométrica, que me obriga ainda,  a distração dos peixes, a gana dos gatos.
Então me elevo, mamífero superior, mandíbulas aptas ao canto - não há verdade fora do canto - carregando nas mãos a lira e o astrolábio. E quanto mais distante me precipito, mais os meus contornos rarefazem, me tornando idêntico ao que já era no princípio. Mas neste ponto você já adormeceu, e a noite nos separa em dois reinos - a pura exterioridade dos objetos inertes, a interioridade eloquente metafísica dos tolos.

logos

ver surgir do ilógico arremedo a fina dialética
                         como no malogro
                         do malogro
                         vir milagre
                                        eis a minha
                         vagabunda ocupação:

                              fazer nascer o sim
                                    plantando não

O poeta não está

o poeta não está
saiu não sei ao certo
se para que ao procurarem por ele
ele estivesse em não estar
ou se foi de sacangem mesmo

todas as tardes ele sai
mesmo que fique na cama
e vai desafiar os grilos
para um duelo de assobios

estes costumes, a sra sabe
não são muito fáceis de se livrar
o poeta nasce poeta
enquanto o mundo o despoetiza

mas quando o poeta nasce sapo
safo das coisas de cantar
o mundo é que se arvoresce em canto
e o canto, a sra sabe
é a artéria da sabedoria

mas sente-se aí logo ao largo
da coleção de bitucas amassadas
guenta que o poeta só vai longe
porque nunca sai de casa

III


Me lembro: a luz lanosa de uma tarde vinha lhe cobrir o colo de nectarinas. Você pensava - nunca soube o que você pensava. Quando estava só parecia mais um aquário - onde o que vemos é o movimento aleatório das partículas, a superfície sensível do pensamento. E que não se ouse duvidar da ordem geométrica secreta que operava aquela máquina serena, comtemplando as formas de um besouro. Cuspia o fio de linha que lhe sobrara nos beiços enquanto cozia - pela terceira vez - uma velha calça minha. As coisas amarelas tinham seu modo de ser. E você distribuía amarelisse às crianças dos vizinhos, aos gatos que vinham pedir leite e carne moída, às chuvas sem prenúncio, aos dentes de leão.

a morte do sujeito

um sujeito entra no bar
a camisa manchada de sangue
rasgada
a pele do rosto duro
barrenta

pede um fogo-paulista
e um cigarro solto

- tiro de mulher não mata.

tomou de um gole só
bateu com força o copo
e morreu ali mesmo

no meio das putas que reclamavam da baixa freguesia
em cima do caderno esportivo
e de bitucas de cigarros fumados demais

não me represento

penso onde não sou
porque pensar
é lento.

numas


lento
equívoco
entre equívocos

uso o cigarro para respirar

e enquanto espero
expiro

II


Sem o suporte do olhos, abrindo a boca como um pássaro, gemendo coisas em línguas, sim. Relâmpago lento em cavalos de lã. E começava a babar uns nomes, misturar pessoas em quiasmas caprichosos, o tempo voltando - a casavelha onde passarávamos as tardes, lembra? As paredes apodrecendo, trabalhadas pelas mãos frias da visita indesejada. No colo, o jornal espetava os acontecimentos como insetos. Era próprio das notícias serem póstumas, o que te incomodava. Você pegava os rola-bostas num pequeno guardanapo e devolvia-os pra bosta, onde podiam trabalhar e amar. E até um coisinho dum formigo era um passarinho pra você.
Escrevo daqui. Sem as batatas que só você. Com um amor mudo, bruto, inconfessado. Todo teu. E ainda não sei o nome de muitas coisas, então eu descrevo pra você usando uma imitação das coisas. Porque, sabe, não sei senão contar. E contar é meu modo de ficar em silêncio - ando sem sair de mim. Mariposas no lugar dos olhos. Eu sei que você não pode ouvir. Mas tudo é tão pouco que possível me parece belo. E possível sempre é, mesmo que não seja. Existe sempre o velho recurso ao sonho: e daí ele acordou e descobriu que sonhara. E porque não começar assim?

I


É sempre o recomeço. Porque não me engano, o acúmulo, quando não é mera ilusão, é âncora. Porque a busca de uma forma pode estar sub-repticiamente em núpcias com a fuga da forma. E daí se foge em vão, pensando estar livre, no seio da invenção, quando apenas repete-se. Por isso o recomeço, a folha branca. Mas não é que a forma em si mesma seja ruim. O que ela traz de gesso é que preocupa. Então estou à procura de rachaduras por onde possa escoar o que interessa - a matéria do oco no corpo do texto. E se rachaduras não houver, me sirvo de um martelo. Tudo com muita delicadeza, para preservar um mínimo de corpo. Ou talvez eu esteja Novamente repetindo. E se for assim, que seja. Colar as peças é sempre a parte divertida.

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