encontro no turbilhão
estou do avesso
aqui não tem nome
você não sei
se pelo fio
de luz
corporifica o canto
mas o súbito
anjo ventríloquo
me imputa o ato livre
e cá estou
absurdo
dissolvido
no protoplasma
em que memória
e mundo
são ditos o mesmo
a nuvem de pássaros
insiste no gris
e turva um horizonte
bailarino
onde toda coisa
é um encontro
com toda outra
mas estou velho para esboços
e esqueço teu rosto
na quadratura de um círculo
poemapedra
escrevi este poema
com este poema embrulhe um peixe
faça
ou apenas abandone-o
como o caminho abandona
o caminhante
sem beleza ou rima
sem pudor
nem valor de mercado
um poema até
devo confessar
sem graça
um poemapedra
para uma voz-parábola
cujo destino me ultrapassa
com este poema embrulhe um peixe
enxugue as lágrimas
enfie este poema no cóxis
coma este poema
faça com ele um tsuru
muita coisa com ele
não pode mesmo ser feita
mas o pouco que se podenão pode mesmo ser feita
faça
pegue por exemplo
com a paixão dos entediados
e atire na vidraça
na polícia
dê de comer aos pombos
aos andarilhos
em pequenos picadilhos indigestosou apenas abandone-o
como o caminho abandona
o caminhante
um mote
“Pois mesmo o vazio é uma sensação, toda sensação se compõe com o vazio, compondo-se consigo, tudo se mantém sobre a terra e no ar, e conserva o vazio, se conserva no vazio conservando-se a si mesmo. Uma tela pode ser inteiramente preenchida, a ponto de que mesmo o ar não passe mais por ela; mas algo só é uma obra de arte se, como diz o pintor chinês, guarda vazios suficientes para permitir que neles saltem cavalos” (G. Deleuze, citando Huang Pin-hung)
agrimensor do mundo
1.
enumero com rigor
o redor imediato.
constato: somadas
as coisas, o mundo
me falta.
2.
capturo do iminente
a exata manobra:
contados os fatos,
o mundo me sobra
enumero com rigor
o redor imediato.
constato: somadas
as coisas, o mundo
me falta.
2.
capturo do iminente
a exata manobra:
contados os fatos,
o mundo me sobra
compêndio
fiz um volumoso compêndio
dos grandes pensadores
que falaram do amor
e posso resumir em duas palavras:
- ai, ai...
dos grandes pensadores
que falaram do amor
e posso resumir em duas palavras:
- ai, ai...
poetas póstumos
exumá-los
fumar-lhes
os miolos
atirá-los
aos tolos
como pérolas
aos poucos
esfregá-los
nas bocas
dos mornos
como sabão
para fazer
falar
palavrão
enfiá-los
nos cus
de acadêmicos
caducos
nos ralos
dos banheiros
públicos:
serpentina
de pentelhos
báquicos
cortá-los a
carne fétida
em talos
e atá-los
ao manto
dos pálidos
cânones
para depois
de tanto
estrangulá-los
com a própria
métrica
e soterrá-los
sob o
próprio
canto
fumar-lhes
os miolos
atirá-los
aos tolos
como pérolas
aos poucos
esfregá-los
nas bocas
dos mornos
como sabão
para fazer
falar
palavrão
enfiá-los
nos cus
de acadêmicos
caducos
nos ralos
dos banheiros
públicos:
serpentina
de pentelhos
báquicos
cortá-los a
carne fétida
em talos
e atá-los
ao manto
dos pálidos
cânones
para depois
de tanto
estrangulá-los
com a própria
métrica
e soterrá-los
sob o
próprio
canto
res extensa
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o
corpo
do
poema
tem
uma
forma
no
espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o corpo do poema tem uma forma no espaço
o
corpo
do
poema
tem
uma
forma
no
espaço
/polindo lentes ainda/
/ainda que me cerquem mares/
/nas órbitas dos olhos agrestes/
/insuflando as flâmulas/
/graves dos becos/
/no interlúdio/
/entre os sóis/
/ainda que me corte a pele/
/o frio que me escancara o poro/
/ainda e apesar dos barcos abandonados no sono/
/ainda e ao final de um trago/
/do charco horizontal do azul/
/entre o gris que o porvir convida/
/a voltar por sobre os passos/
/e a revolta das cores contra as formas/
/serei cego ainda que meus olhos/
/sejam luz/
/e anoiteçam gardênias/
/nas órbitas dos olhos agrestes/
/insuflando as flâmulas/
/graves dos becos/
/no interlúdio/
/entre os sóis/
/ainda que me corte a pele/
/o frio que me escancara o poro/
/ainda e apesar dos barcos abandonados no sono/
/ainda e ao final de um trago/
/do charco horizontal do azul/
/entre o gris que o porvir convida/
/a voltar por sobre os passos/
/e a revolta das cores contra as formas/
/serei cego ainda que meus olhos/
/sejam luz/
/e anoiteçam gardênias/
Se o prazer do cavalo do cão e do homem é diferente
Se asnos prefeririam palha à ouro
Por quê então o homem ao gozar do ouro
Comporta-se como um cão e age como um asno?
(Alexandre Magno)
Se asnos prefeririam palha à ouro
Por quê então o homem ao gozar do ouro
Comporta-se como um cão e age como um asno?
(Alexandre Magno)
espaço e transparência
para que o poema galgasse meu
CAVALO BRANCO
cavei um vazio entre estes versos
tonho dodói
velho como o vento, jurava ter descabaçado a lua. os olhos vítreos brincando os vultos. incapazes de cena: pro sinhor vê, que de tanta lonjura despenquei da pretidão, e cá o joelho instrupiô. por um momento movia os lábios em silêncio, cheios de sulcos no redor. a língua dançava entre os raros dentes, recordava. o dedo apontando - foi quando em menino, nem tinha aivão nem nada. mãezinha me tocou pro mato, modo eu catar estrela, contava. alva música ondulava no sonhamento do velho, no contra-ocre da terra batida. como de dentro de um aquário, sondava as coisas turvas estrangeiras, cheias de luzes: pequenas estrelinhas nas mãos dos rapazes e das meninas que iam e vinham na rua que ele vira crescer. eles levavam as luzinhas ao rosto e falavam. como conversando com candeeiros. mas isso ele também fez muito, de menino. mastigou, cuspiu, levou o braço à boca. a lua nunca brilhou tanto como naquele dia, explicou. ele também ficou bem uns sete meses coberto por um pó de luz que banho nenhum tirava. passava os dias sonhando, escrevinhando coisas. os meninos apontavam, olha lá o tonho dodói. mas ele sabia que encantamento não era doença. que doença fazia a gente amarelo, fraco, molengo. isso não podia ser, sabia. quando na lua subiram uns homens, ele ficou injuriado: pisarem no meu bem, espetando coisas, tirando pedaço. triste, ele andou por dias. quando voltou era outro. diz-se que o menino ficou e mandou no lugar este senhor, para sentar nesta cadeira de vime, mastigar mato e cuspir e lembrar. dizem também que o pó de luz formou um rastro, e que se a gente seguir, vai encontrar o menino atracado à lua, trêmulos os dois, de um amor mais verdadeiro que o mundo. coisa que se conta por aqui, e que não se inventa duvidar.
são carlos, março de 2012.
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