não é o bastante a lua luzir
ela deve dançar
a matemática forjou a lua
as leis do mercado a supõem
a lua deve ter o comprimento da vida
e o tamanho dos dedos dos pés
a fécula lunar fecunda o atlântico
enquanto as gaivotas defecam no lixo
come metafísica, menina
come metafísica
olha que não há
chocolates
na mercearia
come metafísica
a casinha guarda do azul
os modos de entardecer
as curvas do nome
a tendência ao musgo
e como que me atém bordado
ao seu contorno alegre
à superfície porosa
com que acarinha o vento
quando anoitece
fica um halo velando a casinha
qual regalo que o dia deixasse
de agradecimento
a menina colheu meus olhos
pousados num bem-te-vi
devia de ser domingo
por que as formigas não saíram
e tinha música nas casas
o nome dele é uma ferida
o dela é um olho aberto
o deste aqui é um arquivo morto
o daquele
um ornamento
o nome do homem ao teu lado
é homem ao teu lado
o do esquecido sob a pele
é segredo
o nome de batismo dela
toca com a ponta da música
o nome da sua amada:
escurecida de paixão
debaixo das amoreiras
enquanto as avenidas choram
"Como se de súbito tivesse caído em águas muito profundas, (...) não posso nem firmar meus pés no fundo, nem nadar para me manter à tona."
(descartes arriscando um tchibum. tradução do bento prado jr.)
fazemos coisa de nós
que desfazemos nus
fazemo-nos
I
para errar o caminho de casa
é obrigatório o uso de conchas
na falta de conchas
recomenda-se casca de lápis
II
os pés devem tocar o erro
mas apenas de resvalo
para não perder a displicência
III
é facultativo o porte de resmungos
IV
se começar a chover
cante
V
para melhor aproveitamento das aves
deve-se ficar um pouco poeta
mas não muito
VI
a voz de uma cigarra
pode te colher uma orelha
sem aviso prévio
VII
carrapatos se reservam o direito
de pegar carona nos pentelhos
VIII
em caso de ingestão de amoras
torna-se compulsório cantar
ficando-se sujeito a soluços
de acordo com o grau de silêncio
IX
a título de lesma
fica vetado pensar em palavras
terminadas em “íssimo”
X
os gatos no caminho são cortesia
a preguiça puxava um cão
pelo assobio
a ladeira deitava para a preguiça passar
e cumprimentava o cão
acenando
os postes
08/2011
I
um homem olha suas próprias mãos enquanto move-se a esteira sobre a qual ele se debruça de quinze em quinze segundos para girar um parafuso após outro. a menos de um quilômetro dali, um outro homem suspira amaldiçoando os papéis sobre os quais se debruça de quinze em quinze segundos para assinar seu nome sobre uma linha negra. no mesmo instante em que as sirenes assustam um gato de nome raimundo, as pombas defecam e recolhem-se para seus ninhos, uma criança nasce, uma lagarta passeia nos cabelos de uma menina, e a sombra da figueira no quintal de um asilo projetada na janela principal forma um ângulo de noventa graus em relação ao solo.
II
as mãos, suadas sob uma grossa luva de borracha eram vaga lembrança num parque onde aprendera com seu pai a fazer barcos de papel. as folhas sobre a mesa, lívidas e mortas, representavam para o outro homem sua porção mais viva, sua carne: a consistência de seu ser era, afinal, medida pelo volume de papel acumulado nas prateleiras de seu escritório.
o nome da criança que acaba de nascer naquela ambulância é raimundo. uma pomba abocannha uma lagarta, e quando a sombra da figueira marca o exato instante em que o relógio cuco da sala do asilo marca seis horas, uma menina volta correndo para casa chorando e remexendo nos cabelos em pânico.
III
as mãos do homem despedem-se das luvas e voltam para os bolsos.
os papéis voltam para os envelopes reutilizáveis de correspondência interna do banco.
raimundo tem exatos 3,5 Kg, e seus pais estão contentes.
a menina conta para a mãe que uma pomba roubou sua lagarta.
uma senhora fecha seu livro de orações e pensa em goibada.
08/2012
I
cresce a tarde como uma goiaba
e é como se pescasse
nos peixes
o mar
II
a farinha pobre de um domingo
respingou na lâmpada
III
noiteluziu
hermes apertou as tâmaras gorduchas. o sol mordia sua pele, subia o sangue enrubescendo as bochechas. pensava na silenciosa e adstringente lesma do tempo, e nas horas que poderia ficar ali mordendo aquela carne doce, esquecendo. apenas esquecendo. talvez porque soubesse que deixar-se estar era correr veloz. sabia a vertigem de permanecer e a falsa mudança de perder-se em cidades desconhecidas: a cada esquina via sempre a mesma esquina nova, a cada volta a novidade do retorno - aquele cahorro não estava ali antes. quede aquelas castanhas? gostava de olhar as feirantes manuseando, falando das vantagens do seu repolho com rigor e precisão. qualquer demora na oferta empobrecia a urgência que devia nascer na cabeça do freguês como um bonsai: grande e pequena. e viva, sobretudo. enquanto desempanhavam a retórica do livre mercado, hermes deixava-se verter pelos aromas e cores e timbres, como a superfície de um lago vê passarem os seixos na correnteza. o rádio ligado sobre um caixote dizia tragédias e os números da loto. a cabeçacoração de hermes sondava o alguém poder prever o futuro e ter esperança ao mesmo tempo. o coraçãocabeça calculava as chances de ganhar sem nunca ter jogado. e dava o mesmo número.
todos os sintomas do cinema clássico