a velhice
é a última etapa
da infância
fuga de areia
abandonando as linhas
do rosto no branco
arenoso e movente
já sem olhos toda
garganta artéria trespassada
por um grito
de trigo
e entrega
tanto segredo sangrando
na concha das orelhas
relva luz saliva
sal as órbitas
comidas pelo verme do tempo
o mensageiro do vento
ela
prendeu entre
as pernas antes
que escapássaro todo ainda
imerso no cheiro
seus cabelos
na boca que gemia um riso mole
um nome um
teorema
o prisma do silêncio decompõe o hiato em partículas de canto
e como um animal que pressentisse amor
te e escolhesse o leito
o coração no escuro esquece
e desabita o peito
são carlos, novembro de 2011.
são carlos, novembro de 2011.
hilda dizendo bom dia
"Tu sabes que serram cavalos vivos
para que fiquem macias
as sacolas dos ricos?
Já sei que tá cheio de gente sofrendo, velhos, crianças, mulheres, nordestinos, favelados, mas é preciso também fazer alguma coisa urgente e batalhar contra a crueldade em relação aos animais. Há algum tempo ouvi dizer que serravam cavalos vivos por que a dor fazia com que o couro ficasse macio... Fui vomitar ventando no meu pinico de barro."
(a hilda de novo. poetacronista. fazendo meu chá mate ficar com gosto de cachaça)
para que fiquem macias
as sacolas dos ricos?
Já sei que tá cheio de gente sofrendo, velhos, crianças, mulheres, nordestinos, favelados, mas é preciso também fazer alguma coisa urgente e batalhar contra a crueldade em relação aos animais. Há algum tempo ouvi dizer que serravam cavalos vivos por que a dor fazia com que o couro ficasse macio... Fui vomitar ventando no meu pinico de barro."
(a hilda de novo. poetacronista. fazendo meu chá mate ficar com gosto de cachaça)
desvairismo
"Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres"
(mário de andrade, no prefácio interessantíssimo)
"nosso sangue está na moda:
esperamos a última foda
lambemos os olhos
e deciframos a morte"
esperamos a última foda
lambemos os olhos
e deciframos a morte"
(da aline zouvi, por aqui.)
manifesto
a classe poética reivindica para si
o direito de ter
preguiça
são carlos, novembro de 2011.
o direito de ter
preguiça
são carlos, novembro de 2011.
meditação de julho
mamãe
por que essa bola que a gente pisa é tão triste?
é por que ela dança sozinha
nos pés da gente a coitadinha
mas mamãe
e quando ela cansar
e fugir da gente?
e fugir da gente?
a gente pisa um no outro, meu filho
para o que já ensaiamos o bastante
no que o menino foi soltar papagaio
são carlos, 2011.
plano sequência
1 a menina acorda
no meio da menina a noite
acorda o cão
2 o cão olha o preto
da noite no meio da menina
3 o cão sente o amargo
da menina no meio da noite
na língua
4 o nome do cão é sem nome
o da noite é sem menina
o nome da menina é menina
5 a noite avança e cede
no meio do cão
a menina dorme
campinas, janeiro, 2012.
no meio da menina a noite
acorda o cão
2 o cão olha o preto
da noite no meio da menina
3 o cão sente o amargo
da menina no meio da noite
na língua
4 o nome do cão é sem nome
o da noite é sem menina
o nome da menina é menina
5 a noite avança e cede
no meio do cão
a menina dorme
campinas, janeiro, 2012.
com os olhos da Hilda
"Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre a mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isto é aquilo que vê. Esta é a matéria que vê.Toco os dois olhos em cima da mesa. Lisos, tépidos ainda (arrancaram há pouco), gelatinosos. Mas não vejo o ver. Assim é o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito."
(Hilda Hilst)
caspa
a todos os poetas que já mancharam guardanapos com versos espúrios:
a morte,
ou menos:
uma leve ressaca moral
algumas dúvidas tenazes
suores nas mãos
pigarro e
caspa.
a morte,
ou menos:
uma leve ressaca moral
algumas dúvidas tenazes
suores nas mãos
pigarro e
caspa.
das gaivotas
ela deve dançar
a matemática forjou a lua
as leis do mercado a supõem
a lua deve ter o comprimento da vida
e o tamanho dos dedos dos pés
a fécula lunar fecunda o atlântico
enquanto as gaivotas defecam no lixo
na mercearia
come metafísica, menina
come metafísica
olha que não há
chocolates
na mercearia
come metafísica
come metafísica
olha que não há
chocolates
na mercearia
come metafísica
a casa azul
a casinha guarda do azul
os modos de entardecer
as curvas do nome
a tendência ao musgo
e como que me atém bordado
ao seu contorno alegre
à superfície porosa
com que acarinha o vento
quando anoitece
fica um halo velando a casinha
qual regalo que o dia deixasse
de agradecimento
os modos de entardecer
as curvas do nome
a tendência ao musgo
e como que me atém bordado
ao seu contorno alegre
à superfície porosa
com que acarinha o vento
quando anoitece
fica um halo velando a casinha
qual regalo que o dia deixasse
de agradecimento
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