desvairismo



"Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres"

(mário de andrade, no prefácio interessantíssimo)
"nosso sangue está na moda:
esperamos a última foda
lambemos os olhos
e deciframos a morte"


(da aline zouvi, por aqui.)

manifesto

a classe poética reivindica para si
o direito de ter
preguiça

são carlos, novembro de 2011.

meditação de julho

mamãe
por que essa bola que a gente pisa é tão triste?

é por que ela dança sozinha
nos pés da gente a coitadinha

mas mamãe
e quando ela cansar
e fugir da gente?

a gente pisa um no outro, meu filho
para o que já ensaiamos o bastante

no que o menino foi soltar papagaio

são carlos, 2011.

plano sequência

1 a menina acorda
no meio da menina a noite
acorda o cão

2 o cão olha o preto
da noite no meio da menina

3 o cão sente o amargo
da menina no meio da noite
na língua

4 o nome do cão é sem nome
o da noite é sem menina
o nome da menina é menina

5 a noite avança e cede
no meio do cão
a menina dorme

campinas, janeiro, 2012.

com os olhos da Hilda



"Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre a mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isto é aquilo que vê. Esta é a matéria que vê.Toco os dois olhos em cima da mesa. Lisos, tépidos ainda (arrancaram há pouco), gelatinosos. Mas não vejo o ver. Assim é o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito."

(Hilda Hilst)

caspa

a todos os poetas que já mancharam guardanapos com versos espúrios:
a morte,
ou menos:

uma leve ressaca moral
algumas dúvidas tenazes
suores nas mãos
pigarro e

caspa.

das gaivotas

não é o bastante a lua luzir
ela deve dançar

a matemática forjou a lua
as leis do mercado a supõem

a lua deve ter o comprimento da vida
e o tamanho dos dedos dos pés

a fécula lunar fecunda o atlântico
enquanto as gaivotas defecam no lixo

na mercearia

come metafísica, menina
come metafísica

olha que não há
chocolates
na mercearia

come metafísica

a casa azul

a casinha guarda do azul
os modos de entardecer
as curvas do nome
a tendência ao musgo

e como que me atém bordado
ao seu contorno alegre
à superfície porosa
com que acarinha o vento

quando anoitece
fica um halo velando a casinha
qual regalo que o dia deixasse
de agradecimento

tempo de amoras

a menina colheu meus olhos
pousados num bem-te-vi
devia de ser domingo
por que as formigas não saíram
e tinha música nas casas

avenida das amoreiras

o nome dele é uma ferida
o dela é um olho aberto
o deste aqui é um arquivo morto
o daquele
um ornamento

o nome do homem ao teu lado
é homem ao teu lado
o do esquecido sob a pele
é segredo

o nome de batismo dela
toca com a ponta da música
o nome da sua amada:

escurecida de paixão
debaixo das amoreiras
enquanto as avenidas choram

outras postagens

.
Licença Creative Commons

Arquivo do blog